30 de outubro de 2015 | Artigos Científicos, Convivendo com o Câncer, Notícias | artigo câncer enfermagem InORP tratamento

Papel do enfermeiro clínico especialista em oncologia

O número de casos de câncer tem aumentado consideravelmente em todo o […]

O número de casos de câncer tem aumentado consideravelmente em todo o mundo, constituindo-se em um dos mais importantes problemas de saúde pública tanto em países desenvolvidos como naqueles em desenvolvimento. Mais de 12 milhões de pessoas no mundo são diagnosticadas todo ano com tumor.  Cerca de oito milhões morrem. No Brasil, o câncer é a segunda causa de morte não violenta, atrás apenas das doenças cardíacas. O INCA (Instituto Nacional de Câncer, órgão do Ministério da Saúde) estima em 580 mil casos novos da doença para 2015. Se medidas efetivas não forem tomadas, haverá 26 milhões de casos novos e 17 milhões de mortes por ano no mundo em 2030, sendo que 2/3 das vítimas vivem nos países em desenvolvimento¹.

Nos últimos anos aconteceram muitos avanços no diagnóstico e tratamento da doença. O tratamento, na maioria das vezes, provoca uma série de consequências físicas, emocionais e sociais. Essas mudanças requerem atenção e suporte maior por parte da família e da equipe multiprofissional. Não raro, inicia-se um processo no qual os pacientes vivenciam diversas perdas de autonomia no cotidiano e alterações nos hábitos de vida, com necessidade de criar novas maneiras de viver e adaptar-se à realidade apresentada, uma vez que esse paciente passa a depender de medicações e a conviver com os efeitos adversos da terapêutica. Em geral, durante o tratamento, os pacientes e familiares, além de passarem pelos efeitos colaterais do tratamento que causam incômodo e interferem negativamente no aspecto físico da qualidade de vida, ainda vivenciam sentimentos de medo, tristeza e incerteza da cura.

Para esse manejo é crucial uma equipe interdisciplinar com contínuo aprimoramento dos conhecimentos técnico-científicos, bem como o estreitamento das relações interpessoais, promovendo ações de saúde e educação eficazes no decorrer do tratamento, que possibilitem minimizar o sofrimento de todos os envolvidos no processo de cuidar. O profissional de enfermagem é o membro da equipe que mais tempo permanece com o paciente e muitas vezes o primeiro a identificar os efeitos indesejáveis. Torna-se evidente a necessidade de que os enfermeiros oncológicos conheçam profundamente as características, os sinais e sintomas, tipos de tratamentos, efeitos colaterais e os cuidados de enfermagem que podem ser prestados, pois estes, como membros da equipe de saúde, assumem função vital na recuperação do paciente 2.

Cuidar, em enfermagem, é planejar e realizar intervenções para melhorar as respostas das pessoas aos problemas de saúde e aos processos da vida. Requer a identificação de respostas funcionais e disfuncionais, a proposição de intervenções e a avaliação de resultados obtidos.

As ações de enfermagem compreendem todo o cuidado, seja ele preventivo, curativo, reabilitação antes, durante e após tratamento ou no controle dos sintomas. De acordo com a resolução RDC 220/04 que aprova o Regulamento Técnico de funcionamento dos Serviços de Terapia Antineoplásica e a resolução COFEN 210/1998, que regulamenta a atuação dos profissionais de Enfermagem em quimioterapia, traz como competências do enfermeiro 3:

  • Planejar, organizar, supervisionar, executar e avaliar todas as atividades de enfermagem, em clientes submetidos ao tratamento quimioterápico antineoplásico, categorizando-o como um serviço de alta complexidade, alicerçados na metodologia assistencial de enfermagem;
  • Elaborar protocolos terapêuticos de enfermagem na prevenção, tratamento e minimização dos efeitos colaterais em clientes submetidos ao tratamento;
  • Realizar consulta baseada no processo de enfermagem direcionado a clientes em tratamento quimioterápico antineoplásico;
  • Assistir, de maneira integral, aos clientes e suas famílias, tendo como base o Código de Ética dos profissionais de enfermagem e a legislação vigente;
  • Ministrar quimioterápico antineoplásico, conforme farmacocinética da droga e protocolo terapêutico;
  • Promover e difundir medidas de prevenção de riscos e agravos por meio da educação dos clientes e familiares, objetivando melhorar a qualidade de vida do paciente;
  • Participar de programas de garantia da qualidade em serviço de quimioterapia antineoplásica de forma setorizada e global;
  • Proporcionar condições para o aprimoramento dos profissionais de enfermagem atuantes na área, por meio de cursos e estágios em instituições afins;
  • Participar da elaboração de programas de estágio, treinamento e desenvolvimento de profissionais de enfermagem nos diferentes níveis de formação, relativos à área de atuação;
  • Participar da definição da política de recursos humanos, da aquisição de material e da disposição da área física, necessários à assistência integral aos clientes;
  • Cumprir e fazer cumprir as normas, regulamentos e legislações pertinentes às áreas de atuação;
  • Estabelecer relações técnico-científicas com as unidades afins, desenvolvendo estudos investigacionais e de pesquisa;
  • Promover e participar da integração da equipe multiprofissional, procurando garantir uma assistência integral ao cliente e familiares;
  • Registrar informações e dados estatísticos pertinentes à assistência de enfermagem, ressaltando os indicadores de desempenho e de qualidade, interpretando e otimizando a utilização dos mesmos;
  • Formular e implementar manuais técnicos operacionais para a equipe de enfermagem nos diversos setores de atuação.
  • Formular e implementar manuais educativos aos clientes e familiares, adequando-os a sua realidade social;
  • Manter a atualização técnica e científica da biossegurança individual, coletiva e ambiental que permita a atuação profissional com eficácia em situações de rotinas e emergenciais, visando interromper e/ou evitar acidentes ou ocorrências que possam causar algum dano físico e/ou ambiental.

A demanda crescente e o compromisso com a missão idealizada estimulou os profissionais a buscarem um modelo de atendimento multiprofissional que correspondesse às necessidades e atendesse às particularidades dessa população e não apenas a obrigatoriedade da legislação. Quando falamos do enfermeiro oncológico, é necessário ressaltar que ele detém um conhecimento técnico-científico complexo, específico e essencial à prática, ligado a uma imprevisibilidade ditada pelos efeitos colaterais comuns à terapêutica. Assim, no início dos anos de 1970, os ensaios clínicos e a equipe multidisciplinar se estenderam da academia para a comunidade, crescendo, então, a demanda para a enfermagem oncológica, o que estimulou o desenvolvimento dessa especialidade, culminando, assim, com o aparecimento das organizações de enfermagem oncológica, da educação curricular, dos cursos de especialização, de atualização e de outros. Um reduzido, mas logo crescente número de enfermeiras, trabalhando inicialmente em centros de pesquisa, deu início às discussões, levando à criação da ONS (Oncology Nursing Society), em 1975, que é a maior organização científica do mundo na especialidade do câncer, promovendo fóruns de discussões e constituindo um meio pelo qual os enfermeiros podem contribuir para a especialidade4.

O enfermeiro clínico especialista em oncologia assume um papel de liderança para que os pacientes obtenham os melhores cuidados possíveis movendo a profissão para uma prática clínica mais resolutiva e qualificada. Ele fornece assistência direta ao paciente e pode desempenhar um papel vital na educação dos mesmos sobre a melhor forma de manejar seus sintomas, bem como oferecendo suporte após o diagnóstico, durante e pós tratamento. O enfermeiro com prática e atributos diferenciados requer qualificação para além dos limites do bacharelado. Em muitos casos o envolvimento de um enfermeiro especialista pode impedir que os pacientes sejam re-hospitalizados.

Enfermeiros clínicos especialistas em oncologia agregam valor ao atendimento ao paciente, gerando ganhos de eficiência para as organizações por meio de novas e inovadoras formas de trabalhar. Os benefícios de custo gerados por enfermeiros especializados incluem 5,6:

  • Reduzidos tempos de espera;
  • Gestão de projetos e inovação;
  • Habilidades e diagnóstico clinico avançado;
  • Excelentes habilidades decisórias de acordo com o conhecimento técnico-científico;
  • Pacientes referem maior satisfação com o tratamento recebido;
  • Evita a internação desnecessária / readmissão (por meio de complicações reduzidas pós-cirurgia e cuidados de suporte);
  • Atuação nos efeitos mais rapidamente e controle dos sintomas;
  • Melhora o autocuidado do paciente;
  • Reduz a permanência hospitalar;
  • Reduz as taxas de abandono de tratamento, maior adesão ao tratamento;
  • Educação e aconselhamento especializado direto dado aos pacientes, famílias e cuidador;
  • Redução dos custos do tratamento;
  • Inclusão de pacientes com menor custo;
  • Proporcionar melhor qualidade do cuidado e melhor qualidade de vida.

A clínica de oncologia da qual faço parte, e tenho o papel de líder e supervisora, possibilita a atuação do enfermeiro clínico especialista em oncologia e tem como requisito mínimo de contratação ter especialização em enfermagem oncológica reconhecida.  Possibilita a compreensão das necessidades dos pacientes, concepção e planejamento dos cuidados e obtenção do feedback do paciente e /ou cuidador.

Os enfermeiros são responsáveis pelo planejamento, execução e avaliação do cuidado prestado a um determinado grupo de pacientes, de acordo com o tipo de neoplasia ou protocolo terapêutico, através da prática baseada em evidências e execução de protocolos descritos e implementados na instituição. É realizado consulta de enfermagem, avaliação de sinais vitais, graduação de toxicidade de acordo com o protocolo quimioterápico utilizado antes de cada ciclo do tratamento.

A educação ao paciente e cuidador é parte essencial do cuidado. Todo paciente é orientado antes de iniciar o tratamento juntamente com uma farmacêutica clínica, e recebe uma Pasta denominada Meu tratamento® que contém um manual de orientação geral sobre o tratamento quimioterápico e orientações específicas do medicamento quimioterápico utilizado. Essa pasta é um convite ao paciente e/ou cuidador para fazer parte do tratamento inclusive anotando e acompanhando seus resultados de exames laboratoriais durante o tratamento, e tem o intuito de melhorar a adesão ao tratamento e identificar o reconhecimento dos sintomas precocemente.

O enfermeiro é referência do paciente para o relato de sinais e sintomas.  É realizada uma avaliação inicial e manejo destes. O profissional colabora com o médico para o diagnóstico de condições médicas, solicita exames segundo discussão, orientação e protocolo instituído, interpreta resultado de exames, inclusive para liberação da terapia antineoplásica, e discute com a equipe médica para definição de conduta terapêutica, além de participar também de reuniões clínicas semanais de discussão de casos.

O conhecimento técnico-científico é constantemente atualizado por meio da participação de Congressos, aulas de educação continuada e contato com profissionais renomados.

Responsável pelo encaminhamento para os demais membros da equipe multidisciplinar, muitas vezes o profissional tem o papel de mediador do contato médico-paciente-equipe multidisciplinar.

O enfermeiro clínico especialista em oncologia é responsável pelo cuidado integral centrado no paciente em todas as fases do diagnóstico, tratamento curativo ou no controle dos sintomas, após o término, durante acompanhamento e reabilitação. Os cuidados ultrapassam as técnicas, a humanização, empatia, conhecimentos técnico-científicos e prática clínica mais resolutiva e qualificada são diferenciais no acompanhamento do paciente oncológico.

Referências

  1. inca.gov.br/wcm/dmdc/2015/numeros.asp em 15/08/2015
  2. Rogers BB. Overview of non-Hodgkin´s lymphoma. Semin Oncol Nurs. 2006; 22(2): 67-72
  3. http://www.cofen.gov.br/resoluo-cofen-2101998_4257.html acessado em 15/08/2015
  4. Camargo TC. O ex-sistir feminino enfrentando a quimioterapia para o câncer de mama: um estudo de enfermagem na ótica de Martin Heidegger. [tese de doutorado]. Rio de Janeiro(RJ): Escola de Enfermagem Anna Nery/UFRJ; 2000
  5. Macmillan Cancer Support, Demonstrating the economic value of co-ordinated cancer services. An examination of resource utilisation in Manchester , March 2010
  6. Fleissig,A.; Jenkins,V.; Catt,S.;Fallowfiel,L.Multidisciplinary teams in câncer care: are theyeffectivein the UK?The Lancet oncology, 2006-Elsevier

 

Carla Tostes

Enfermeira e supervisora Clínica do InORP


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